segunda-feira, 19 de agosto de 2019

‘Rei do bitcoin’ tem bens pessoais penhorados



Claudio Oliveira, dono do Grupo Bitcoin Banco (GBB), sonhava ter a maior plataforma de negociação de criptoativos do mundo e a própria moeda, a Br2Ex, mas na sexta-feira, na sua residência em Curitiba, viu não só os planos quase irem embora, como também os estimados sapatos Louboutin seus e da esposa, Lucinara Oliveira.
O dono do GBB foi alvo de ação de sequestro de bens, que alcançou sua casa e sua chácara, devido a uma decisão obtida no judiciário pelo advogado Gustavo Bonini Guedes, em busca de obras de arte, quadros, relógios e joias. Os oficiais de Justiça estavam prontos para levar o que encontrassem de valor, inclusive os calçados da refinada grife francesa. Como o Valor Investe apurou, eles chegaram a ser empacotados, mas não foram removidos da casa após nova promessa de quitação dos débitos nesta segunda-feira.
Procurado, Guedes, que representa clientes com R$ 13 milhões a receber e que aguardam cumprimento de um acordo já firmado, não quis comentar o assunto.
A ação judicial — que terminou na penhora dos bens, mas sem a retirada — agitou grupos de clientes nos aplicativos WhatsApp e Telegram e alimentou rumores de que Oliveira poderia estar de viagem marcada à Suíça.
A movimentação dos oficiais levou clientes que acompanham os passos do empresário de perto a gravar áudios que se espalharam no fim da noite de sexta, alertando para a eventual mudança. Consultada sobre a possibilidade de Oliveira deixar o Brasil, a assessoria do GBB respondeu que ele não iria comentar.
O empresário viu sua vida ir do céu ao inferno nos últimos meses. Virou alvo de centenas de processos em vários Estados de clientes que não conseguem, desde o fim de maio, sacar recursos aplicados nas plataformas NegocieCoins e TemBTC — nem em dinheiro, nem em criptomoedas.
O valor que o caso envolve é desconhecido. Tudo indica que as cobranças somam centenas de milhões, conforme clientes ouvidos, mas eles não duvidam que o total possa beirar a casa do bilhão. O cálculo é difícil, uma vez que Oliveira se nega a fornecer detalhes — inclusive aos credores. No domingo, o empresário falou brevemente com o Valor Investe e disse que, em breve, detalhará em entrevista qual será a saída para essa crise, que se diz empenhado em resolver.
Entre março e maio de 2019, ele foi assíduo frequentador de colunas sociais com festas e jantares promovidos em São Paulo e Curitiba. Numa dessas, com cobertura do apresentador Amaury Júnior, passou a ser chamado de “o rei do bitcoin” e, em entrevista, disse ter feito receita superior a R$ 180 milhões só em março com as taxas cobradas das movimentações no grupo. À época, dizia que a NegocieCoins tinha o maior volume transacionado do mundo, chegando a US$ 900 milhões ao dia em abril.
Os clientes foram atraídos ao GBB pela perspectiva de lucro e pelos produtos que trocavam o depósito do bitcoin por rentabilidade, sem custo — oferta cada vez mais comum no segmento, embora muitas vezes irregular. Com duas corretoras de criptomoedas próprias, eles tinham ganho assegurado alternando posição entre a NegocieCoins e a TemBTC, pois o GBB, como “market maker” (provedor de liquidez), sustentava uma diferença de preço contínua que permitia arbitragem permanente nas cotações, de acordo com fontes.
A oportunidade tornou-se chamariz para investidores, dos mais aos menos experientes em criptos. Uma enquete com 195 participantes em um dos grupos de WhatsApp apontou que 80% dos membros investiu menos de R$ 300 mil.
Tudo ganhou proporções maiores em fevereiro, quando Oliveira anunciou o sistema que batizou de FortKnox — mesmo nome da localidade nem Kentucky, nos Estados Unidos, conhecida por abrigar o ouro daquele país.