quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Lula ataca ingerência na eleição e manda recado a Trump: ‘O Brasil não cabe no quintal de ninguém’


 











O presidente Luiz Inácio Lula da Silva usou sua fala na Assembleia Geral da ONU  para mandar um recado contra qualquer intervenção estrangeira na eleição brasileira. Ele ainda alertou que não irá tolerar um abalo na soberania nacional e insistiu que o processo eleitoral é “robusto”.

Em tom duro, Lula mandou diversos recados para Donald Trump e indicou: “O Brasil não cabe no quintal de ninguém.”

Na platéia, a delegação dos EUA não aplaudiu o brasileiro e o secretário de Estado, Marco Rubio, sequer estava na sala. Sob recomendação de bolsonaristas, os americanos fizeram questão de não fazer qualquer gesto positivo para Lula, o que poderia ser usado na campanha eleitoral contra a extrema direita.

De fato, ao contrário do que havia ocorrido em 2025, quando uma “química” foi declarada entre os dois líderes, Lula e Trump não se encontraram nos bastidores ONU. Há uma sala que permite que os presidentes possam se saudar, enquanto um entra e outro sai do palco das Nações Unidas.

Houve um intervalo de quase quatro minutos entre os dois discursos e o Brasil estava disposto a promover o aperto de mão. Mas houve uma decisão deliberada para que os dois não se encontrassem.

Lula, de fato, usou o púlpito para adotar um tom enfático contra o chefe da Casa Branca.  “No dia 4, milhões de brasileiros vão à urnas. Vão decidir entre democracia e negacionismo”, disse Lula. “Se o Brasil vai a um futuro de mais oportunidade ou a um passado de exclusão”, alertou.

Segundo ele, o Brasil terá uma eleição “transparente e competitiva”. “Um pleito no qual os candidatos desfrutam da mais ampla liberdade de expressão”, disse. Mas fez uma referência indireta ao movimento bolsonarista. “Sabemos que alguns abusam dessa liberdade para se associar a interesses estrangeiros contrários ao país”, disse.

“Sob o olhar atento de uma cidadania plural e de uma imprensa livre, não permitiremos que os inimigos da democracia, internos e externos, atentem contra a vontade popular”, alertou o presidente. Ele ainda concluiu: “A democracia brasileira pertence aos brasileiros”.

Segundo ele, a América Latina vive “tentações hegemônicas”. E alertou: “O Brasil não cabe no quintal de ninguém.”

Lula defendeu que a região precisa de uma agenda positiva e que diferenças ideologias não podem ser obstáculos para a integração.

“A democracia está novamente em xeque. Voltamos a presenciar a ingerência externa em processos eleitorais. A divisão do mundo em zona de influência e investidas neocoloniais por recursos estratégicos constitui gestos anacrônicos”, disse.

Apesar de dizer que defende a luta contra o crime organizado, indicou que não irá aceitar “terceirizar a responsabilidade” de segurança das fronteiras. “Não precisamos de porta-aviões vigiando nossas águas”, declarou.

O brasileiro ainda criticou a “chantagem” feita por Trump com as barreiras comerciais. “Quando os governos capitulam frente aos que usam tarifas como armas de coerção e chantagem, as consequências são nefastas”, afirmou.

Ao defender a agenda ambiental do Brasil, Lula reiterou que a exploração de terras raras vai ter de gerar benefícios aos brasileiros: “O Brasil é referência mundial em energia verde. Temos os minerais críticos e as terras raras de que o mundo precisa para realizar a transição energética. Nossas riquezas naturais pertencem ao povo brasileiro — e é em benefício dele que serão exploradas”.

O presdidente brasileiro também mencionou a regulamentação das big techs e da inteligência artificial e afirmou que o Brasil aprovou uma das legislações “mais avançadas do mundo” para proteger crianças, adolescente e mulheres no ambiente digital.

“Seria uma omissão histórica imperdoável não enfrentar o desafio da regulamentação das big techs e da inteligência artificial. Um punhado de tecno-oligarcas quer ressuscitar uma versão de neoliberalismo digital, sem regras nem transparência”.

Não cederemos às pressões para privatizar o Pix

Em outro recado a Trump, Lula defendeu o PIX: “Não vamos ceder às pressões de multinacionais que querem privatizar o nosso PIX, uma infraestrutura de pagamentos pública e gratuita que fez da inclusão financeira uma realidade para milhões de brasileiros”.

O discurso de Lula abriu a Assembleia Geral da ONU, evento que irá reunir 71 chefes de estado, 45 chefes de governo, 50 ministros e onze vice-presidentes ao longo dos próximos dias. Mas, desta vez, ele acontece ainda numa encruzilhada histórica da política brasileira. Às vésperas da eleição e sob ataques dos EUA, a decisão do governo foi a de usar a tribuna mais importante da diplomacia mundial para sair em defesa da democracia brasileira, do processo eleitoral e do princípios de que países não podem se meter nos assuntos domésticos de outros.